A Ferida da Rejeição e o Ciclo da Vítima por Isabel Maria Angélica - 24.Mai.2016

24-05-2016 16:16
 
 
"Aquele que não enfrenta os seus próprios demónios, torna-se mestre em apontar os demónios dos outros" 
- Isabel Maria Angélica, 21 de Maio de 2015
 
 
Este ano está implacável no que toca a processos de consciência e amadurecimento. Depois de milénios em que a raça humana viveu fora de si no que toca a assumir as rédeas da sua vida e o que teve sérias repercussões na preservação do poder pessoal e amor próprio, estamos agora a ter o retorno imediato e celular daquilo que representa a Vivência da Responsabilidade.
 
Em Dezembro de 2015, escrevi: "Mais do que Consciência, ser-nos-á pedida a Vivência da Responsabilidade. Vai-nos sendo pedido SÊ O QUE DIZES SER. O iato entre o DIZER e SER será encurtado, com a Vida a devolver-nos ainda mais constante e ferozmente o retorno do que Emanamos, Pensamos, Dizemos e Sentimos. Sim, a Responsabilidade será a Consciência de tudo isso. Mais... A Responsabilidade será a Vivência de tudo isso..."
 
E agora, cinco meses depois, respiro fundo à medida que a vida me vai oferecendo vivências viscerais do que é isto de manifestar a responsabilidade do que penso, digo, emana e faço. Tudo retorna. Nada se perde. Tudo é aprendizagem. Se em Dezembro eu escrevi um texto sobre A Responsabilidade e o Ciclo da Vítima, agora este chama-o de A Ferida da Rejeição e o Ciclo da Vítima. Mais do que um descascar cada vez mais minucioso de como as nossas vítimas internas se apresentam, é, acima de tudo, um caminho de consciência pelos meandros da responsabilidade.
 
Recentemente, tomei consciência que para mim inocência estava associada à vitimização. Foi um choque perceber que o meu dicionário interno confundiu estes dois conceitos, mas também percebi que isso se deveu ao meu processo de crescimento na família que escolhi para ser acolhida em bebé e na minha vida. Um dos personagens principais da minha vida sempre se apresentou sentado na ferida da vítima e, em determinado momento, serviu-se disso para alegar que tinha sido rejeitado pela família. Sem assumir as responsabilidades sobre as suas decisões e actos, encetou num caminho de se auto-excluir e assim justificar perante os demais que tinha sido mal tratado e, por fim, excluído pelos que o amavam. E está tudo bem, são escolhas. Contudo, graças a essas escolhas, perdeu momentos e eventos significativos do seu núcleo familiar. Os laços afectivos podem ser retomados com tempo e calma, mas ficam sempre os espaços vazios deixados pela postura da vítima que escolhe a exclusão para justificar a sua infelicidade. Acima de tudo, para justificar não ter de assumir responsabilidades pelas decisões que tomou.
 
Mas então o que é isto da ferida da exclusão ou da rejeição? Serão a mesma coisa? Na minha perspectiva, e no estudo da psique e da energia que ando a fazer, esta é também uma das formas de apresentação e manifestação da nossa vítima que é exímia em se apresentar também como agressora, manipuladora e rancorosa. Viver a partir do medo da rejeição torna o ser humano tão ardiloso e às vezes até maquiavélico... Viver a partir do posto da exclusão ou da rejeição é observar e agir na vida partindo do pressuposto de que é a sociedade ou o meio familiar/de amizades que nos rodeia que deverá estar sempre em esforço para acolher e se recordar de todos os seus componentes e nunca se esquecer de nós, pois dentro da nossa psique está gravada a mensagem de que "quem não se lembra de mim é porque não me ama". Contudo, não será esta uma forma confortável de nos encostarmos ao posto sem que tenhamos de trabalhar o mérito de "pertencer"?
 
Seja em que círculo for, à partida TODOS recebemos o estatuto de PERTENCER. Mas esse estatuto deve ser honrado e trabalhado por cada um dos seus componentes. Dar e receber é uma premissa da Vida e dos ciclos da natureza. Damos e recebemos. Recebemos e damos. Tudo se transforma e nada se perde nestas dinâmicas de relações inter-pessoais, onde cada um deverá ocupar o seu lugar no círculo onde está inserido. Contudo, reservamos-nos sempre no direito de considerarmos que pelo facto de sermos filhos ou filhas, não precisamos de merecer a atenção e amor. Consideramos que pelo facto de sermos amigos ou amigas não teremos de investir energia nessa troca de afectos e amizade. Errado! Somos elos nesta cadeia e tudo passa através de nós. Não há pontas soltas e nem podemos cair na arrogância que os outros devem distrair-se das suas questões pessoais para incluir, agregar e proteger. Claro que o ideal seria que todos fossemos conscientes o suficiente para que o fluxo da energia de dar e receber estivesse sempre alimentada no nosso fluxo de relações e assim não existirão excluídos ou rejeitados. Mas não é isso que acontece e nas relações humanas existe um factor a ter em conta, sempre! - cada indivíduo é um mundo próprio de experiências e a perfeição não existe.
 
Mas como vivemos ainda na perspectiva judaico-cristã dos ostracizados da sociedade e que os conscientes são culpados pelas falhas do sistema, ainda guardamos em nós essa zona de conforto tão útil que nos faz apontar o dedo a quem exclui e proteger os auto-rejeitados. É algo tão intrínseco, que a maioria das pessoas nos círculos familiares ou de amizade não questionam o "para quê" das coisas e das acções para rapidamente partirem para o julgamento. Mais ainda - este processo é de tal forma elaborado que os que julgam colam-se à ferida do rejeitado que o outro manifesta e assim encontram um mecanismo de nutrir e alimentar a sua própria ferida não observada.
 
O que estou aqui a escrever é com base na minha experiência pessoal. Para uns sou nova, mas já vivi muito e a vida, como disse no princípio, vai-me oferecendo palcos onde posso sentir e observar as dinâmicas humanas onde os 80% do nosso cérebro adormecido se confundem com a miscelânea dos Plano Astral denso e doente. Este é um estudo de ciclos viciosos que perpetuamos há centenas de vidas e que nos últimos 6 mil anos atingiram graus bem maquiavélicos de acção na matéria. Quem tem participado nos curso e encontros que tenho facilitado tem-me ouvido falar sobre estas temáticas e, considero na minha humilde opinião, que não pode haver estudo espiritual e humano sem este aprofundamento das questões energéticas afins entre a mente que mente e o plano astral onde a raça humana se alimenta de processos de vitimização e desresponsabilização.
 
A vítima é ardilosa. Tanto, tanto! Encontra sempre formas labirintícas de se apresentar e é um trabalho CONSTANTE esse o de prestar atenção às ratoeiras internas dos nossos meninos e meninas que não querem crescer e assumir responsabilidades pelo que dizem, pensam, emanam e falam. Obviamente que é mais fácil colocar sempre o ónus no outro ou nas energias, sacudindo a água do capote no que toca aos seus processos pessoais, manifestados a partir do seu eu físico, emocional, mental e espiritual. A vítima quer sempre ser defendida, como se de uma donzela em apuros se tratasse. Mas não existem cavaleiros andantes que salvam as donzelas dos dragões... E os dragões não são para matar, uma vez que eles representam aquilo que nos caracteriza como seres humanos - homens e mulheres cheios de falhas e mecanismos de fuga internos ao propósito real da alma que é o amor e a paz.
 
Para fazermos o caminho da inclusão, da partilha, da oferenda plena e abundante, é totalmente necessário fazermos um caminho de total responsabilidade interna pelo lugar que ocupamos na nossa estrutura familiar e de amizades. Assumir que temos um lugar a ocupar e um papel a cumprir e que não pode jamais ser confundido com o lugar e papel de outrem. Dentro das dinâmicas circulares das nossas vidas, precisamos mesmo sentar o nosso rabo no lugar que escolhemos e assumir a total responsabilidade que isso implica, pois cada um de nós é diferente e com características distintas. 
 
Continuo a defender, como mulher e guardiã de trabalhos de desenvolvimento pessoal e espiritual, que é absolutamente necessário cada ser desenvolver um trabalho sério e guiado para o resgate do amor-próprio e poder pessoal. Sem isso, a tentação de fugir e projectar é sempre demasiado grande, pois a mente mente e é ardilosa. A mente inferior tentará sempre encontrar fugas e escapatórias que justifiquem a desresponsabilização.
 
Desejo-vos um bom caminhar!
 
Isabel Maria Angélica
www.terrasdelyz.net
 
 
Este texto pode e deve ser divulgado desde que respeitada a sua fonte:
Isabel Maria Angélica | 24 de Maio de 2016 | Terras de Lyz | www.terrasdelyz.net
 
Ilustração de Amanda Sage