A nossa Sombra é a arrogância por Isabel Maria Angélica | 8.Março.2016

08-03-2016 18:06

A nossa Sombra é a arrogância

por Isabel Maria Angélica
8 de Março de 2016
 
“Tenciono agora fazer o jogo da vida, ser receptivo a tudo que me chegar, bom e mal, sol e sombra alternando-se eternamente; e, desta forma, aceitar também minha própria natureza, com seus aspectos positivos e negativos...” 
- CARL GUSTAV JUNG
 
 
O Planeta Terra, integrante no Sistema Solar que a raça humana habita, é um local de experiência da dualidade, dos opostos e da vivência dos mesmos. Este é um facto. Logo, os termos luz e sombra, amor e dor, paz e ódio, alegria e raiva, fazem parte da nossa vivência. No entanto, almejamos a luz, o amor, a paz, a alegria e renunciamos à sombra, dor, ódio, raiva, considerando que esses atributos são "maus", "feios" e que nos inferiorizam. Queremos ser superiores, queremos a transcendência e substituímos as sombras pelas ideias de luz, conceptualizamos o amor e a alegria, dizemos em palavras levadas ao vento que somos paz. Mas lá dentro, bem lá dentro do nosso ser, habita o rancor, a raiva... a escuridão...
 
A luz e a sombra não são nada mais, nada menos, do que dois espectros da mesma realidade. Existem lado-a-lado como experiência, pois este é um Planeta de dualidade. Experiência que dura há mais ou menos 100 mil anos para a raça humana, de acordo com as culturas mais antigas que habitam a Terra.
 
Mas afinal o que é a sombra? A sombra será o acumulado de feridas, dores e traumas que nos acompanham ao longo desta vida e de vidas passadas que fica reservado como informação celular dentro do nosso corpo físico e emocional. Contudo, na nossa sociedade neurótica-ocidental*, a sombra foi transformada em algo maquiavélico, demoníaco e severo. Enchemos-nos de termos vivenciais como o "pecado" e "culpa" para ainda calcar mais as ditas feridas, dores e traumas. Encostamos-nos a essa severidade e castigo para nos auto-punirmos e assim termos forma justificada de alimentarmos a nossa vítima interna, para depois termos motivos para sermos "carrascos" de nós mesmos e, finalmente, manipularmos tudo e todos à nossa volta em função dessa percepção distorcida de nós mesmos. (Podem reler o texto "A Responsabilidade e o Ciclo da Vítima"**)
 
Tornou-se um processo físico, que alimenta um corpo de dor, e, mais ainda, que justifica os mecanismos intrincados da nossa mente que mente, e que até mente ao coração**, alimentados durante milénios de cultura patriarcal que impedem a comunicação directa entre a Alma e o Coração.
 
Mergulhar no conhecimento da nossa sombra é crucial como forma de crescimento e consciência, mas não para alimentarmos o nosso "dark side" ou estendermos a dor aos níveis inumanos de sofrimento. É mais do que isso. Mergulhar no conhecimento da nossa sombra é podermos entender e conhecer quais os espectros internos que fazem parte de nós. A dor, a ferida, a sombra que carregamos são, na realidade, uma parte de nós que precisa, apenas e só, vir até à luz. Quanto mais percepção tivermos de nós, na luz e sombra, mais vamos entendendo como nos posicionamos na nossa caminhada da vida.
 
Por isso, tenho chegado a uma conclusão que poderá ofender alguns, mas ajudar outros a aliviar "pesos" internos - a nossa verdadeira sombra parece ser a forma leviana como nos prendemos àquilo que nos passa pela cabeça (mente que mente). Consideramos, de forma arrogante, que tudo o que pensamos é aquilo que nos caracteriza e tomamos todas as decisões da nossa vida baseados nesses pensamentos que passam. No sentido estrito do conceito sombra, se calhar é essa a nossa maior arrogância, pois assim não nos responsabilizamos por aquilo que "nos passa pela cabeça". 
 
Aquilo que carregamos como pontos de dor que originam o trauma, e que se poderá transformar em partes ocultas que a nossa psique precisa esquecer, deverão ser aceites, acolhidos, reconhecidos e integrados dentro de nós com muita, mas muita, humildade. E, ao contrário do que se pensa, humildade nada tem a ver com subserviência, mas sim soberania e autonomia. Mas achamos que sabemos tudo e achamos que a mente precisa de ter opinião sobre tudo, quando ao nível da alma sabemos que nada sabemos perante o Universo Criador. Contudo, a mente que mente aparece como mecanismo de boicote para mentir até ao coração e assim impedir a comunicação directa com a alma. 
 
Somos extremamente exigentes connosco, somos duros, castradores, arrogantes e juízes para que, assim, possamos mascarar a verdadeira dor que carregamos dentro do nosso Ser. Julgamos-nos e aos outros. Comparamos e tratamos o outro como se fosse um conjunto de dados a colocar numa folha de cálculo com pós e contras. Negamos a sombra dentro de nós, mas adoramos o drama das vítimas internas que julga e se compara com os demais. Alimentamos a "culpa" e o "pecado", confundimos falta de humildade com arrogância e a sombra, a verdadeira, a de dor, é transformada num quarto escuro que queremos à força enfeitar com afirmações positivas e pensamentos de luz. No entanto, o "mal" dentro de nós só sairá quando nos tornamos esse "mal", no sentido de que é preciso que o nosso corpo se recorde em todas as fibras que eles nos habita para depois curarmos e transformarmos em outra coisa. A cura assim dá-se, pois é a alma que assim pede.
 
Quando as almas nos pedem caminho de cura, de entendimento, humildade e superação, levam-nos primeiro às nossas águas mais lamacentas e lodosas para a observação e consciência das nossas dores, traumas e feridas. Não é bonito, nem é agradável. É sermos engolidos pela grande Serpente Cósmica para depois sermos refeitos a partir do barro da Terra. Uma e outra vez... as vezes que forem necessárias. E nesse processo, a mente que mente deixa de funcionar, entramos no vazio da nossa consciência e percebemos que tudo aquilo que achávamos que somos nada vale perante a imensidão da alma que nos pede a cura. Mesmo assim, as mentes tentam vir e justificar logicamente tudo o que se passa, transformando a sombra na SOMBRA da arrogância mental e que a humanidade tem teimado a alimentar em forma de atrocidades um pouco por todo o lado.
 
Eu questiono tudo o que faço, como faço e para que faço. Contudo, as curas que tenho tido a bênção de assistir nos trabalhos e atendimentos que facilito são muito maiores do que eu, do que aquilo que eu possa pensar ou daquilo que os outros possam considerar como lógico. E honestamente, tenho entendido cada vez melhor que ao Grande Espírito não lhe interessa o que pensamos. Pois o Grande Espírito actua a partir da Consciência Superior de si mesmo, como Fonte Criadora que É. O resto são ecos de uma humanidade doente que há muito se esqueceu da simplicidade e humildade de viver e existir. Andamos agora desesperados por cura e transformação, mas teimamos, de forma arrogante e simplória, tentar meter tudo em cálculos e comprovações mentais do que pode ou não pode ser. Honestamente, o que achamos que pensamos não vale de nada, pois o pensar nada tem a ver com o sentir.
 
Sentir é a comunicação que a alma estabelece com o coração. E nessa comunicação, a mente, as emoções e o corpo podem e devem apresentar-se como veículo impulsionador dessa interacção genuína que nos liga ao Coração do Céu e ao Coração da Terra e que se apresenta de forma inequívoca no Coração do Eu. A alma é a nossa parte superior evoluída que pretende que nos corpo se manifeste a sabedoria do nosso Eu Superior. E nesta comunicação, neste caminho interno, está a resposta para pararmos a arrogância da mente inferior que teima em manter na escuridão a luz da nossa sombra.
 
Portanto, a nossa verdadeira SOMBRA é a arrogância. As dores, feridas e traumas são apenas partes de nós que precisam de amor e colo. E se precisas de amor e colo, pede! Não sejas arrogante. Sê fluidez.
 
Hoje é Lua Nova em Peixes, com um Eclipse solar. Estamos entre mundos internos, do velho e do novo. O novo é o dom, o velho é a dor... pelo meio há o caminho que nos ensina a transformar a dor em dom, a aprendizagem da humildade e soberania assentes nas premissas do amor próprio e poder pessoal. Não deixem mais que a mente vos minta ao Coração. Questionem essa autoridade desvirtuada e ouçam a voz da vossa alma que vos pede rendição, descanso e entrega. 
 
Bom caminhar!
 
Isabel Maria Angélica
 
 
Este texto pode e deve ser divulgado desde que respeitada a sua fonte:
Isabel Maria Angélica | Março 2016 | Terras de Lyz | www.terrasdelyz.net
 
*Termo usado pelo nosso amigo e professor Ramon Peregrino
**Texto A Responsabilidade e o Ciclo da Vitima - http://www.terrasdelyz.net/news/a-responsabilidade-e-o-ciclo-da-vitima-por-isabel-maria-angelica-28-dez-2015/
**Arcanjo Miguel através de Isabel Maria Angélica - http://www.terrasdelyz.net/news/mensagem-do-arcanjo-miguel-atraves-de-isabel-angelica-junho-de-2014-/