Jesus. O Grande Iniciado.

04-09-2012 16:16

 



OS ESSÊNIOS. JOÃO BATISTA. A TENTAÇÃO

 
O que ele queria saber só podia ser aprendido com os essênios.

Os Evangelhos mantiveram um silêncio absoluto sobre os fatos e sobre as ações de Jesus antes de seu encontro com João Batista, no qual, afirmam, Jesus de algum modo tomou posse de seu ministério. Logo depois ele aparece na Galiléia com uma doutrina definida, com a segurança de um profeta e a consciência de ser o Messias.

Mas é evidente que este início ousado e premeditado foi precedido de um longo desenvolvimento e de uma verdadeira iniciação. Não é menos certo que essa iniciação deve ter-se processado na única
associação que conservava em Israel as verdadeiras tradições e o gênero de vida dos profetas. Disso não há qualquer dúvida para aqueles que, elevando-se acima da superstição da palavra e da mania mecânica do documento escrito, ousam descobrir o encadeamento das coisas por meio de seu espírito. Essa dedução ressalta não somente das relações íntimas entre a doutrina de Jesus e a dos essênios, mas ainda do próprio silêncio mantido por Cristo e os seus sobre aquela seita. Por que ele, que ataca com uma liberdade sem igual todas as seitas religiosas de seu tempo, jamais se refere aos essênios? Por que os apóstolos e os evangelistas também não falam sobre eles? Evidentemente, porque consideram os essênios como irmãos, ligados a eles pelo juramento dos Mistérios, e porque a seita foi fundada com a dos cristãos. A ordem dos essênios constituía, no tempo de Jesus, o último remanescente daquelas confrarias de profetas organizadas por Samuel.
O despotismo dos senhores da Palestina, a inveja de um sacerdócio ambicioso e servil forçaram-nos ao recolhimento e ao silêncio. Eles não mais lutavam como seus predecessores; contentavam-se em conservar a tradição.

Os essênios tinham dois centros principais: um no Egito, à margem do lago Maoris; outro na Palestina, em Engaddi, à margem do mar Morto. O nome essênios provinha do termo sírio Asaya, que em grego significa médicos, terapeutas, porque sua única missão publicamente difundida era a de curar as doenças físicas e morais.
Segundo Josefo, “eles estudavam com grande interesse certos escritos de Medicina que tratavam das virtudes ocultas das plantas e dos minerais” (1). Alguns possuíam o dom da profecia, como Menahem, que predisse a Herodes que ele seria rei. “Eles servem a Deus, diz Fílon, com uma grande piedade, não oferecendo-lhe vítimas, mas santificando o espírito. Evitam as cidades e dedicam-se às artes da paz. Não existe um só escravo entre eles. São todos livres e trabalham uns pelos outros.(2)
As regras da ordem eram severas. Para ingressar era necessário um noviciado de um ano. Quem dava provas suficientes de temperança era admitido nas abluções, sem contudo entrar em contato com os mestres. Eram precisos mais dois anos de provas para ser recebido na confraria. Jurava-se “por terríveis juramentos” observar os deveres da ordem e nada revelar de seus segredos. Somente então tomava-se parte nas refeições comuns, que se celebravam com grande solenidade e constituíam o culto íntimo dos essênios. Consideravam sagrada a vestimenta que traziam nessas refeições e tiravam-na antes de se entregarem ao trabalho. Esses ágapes fraternais, forma primitiva da Ceia instituída por Jesus, começavam e terminavam com uma prece. Lá se dava a primeira interpretação dos livros sagrados de Moisés e dos profetas. Mas, tanto na explicação dos textos como na iniciação, havia três significados e três graus. Muito poucos chegavam ao grau superior.
Tudo isto assemelha-se espantosamente à organização dos pitagóricos (3); mas é certo que esta organização era aproximadamente a mesma entre os antigos profetas, porque encontravam-se em toda a parte onde existiu a iniciação. Acrescentemos que os essênios professavam o dogma essencial da doutrina órfica e pitagórica, o da preexistência da alma, conseqüência e razão de sua imortalidade. Diziam eles: “A alma, que desce do éter mais sutil e é atraída para o corpo por um certo encanto natural, nele permanece como em uma prisão. Livre dos laços do corpo como de uma longa escravidão, ela voa com alegria”. (Josefo,A.J.H, 8).

Entre os essênios, os irmãos propriamente ditos viviam na comunidade dos bens e no celibato, em regiões retiradas, lavrando a terra e, algumas vezes, educando crianças estrangeiras. Quanto aos
essênios casados, constituíam uma espécie de terceira ordem, filiada e submetida à outra. Silenciosos, suaves e graves, eram vistos aqui e ali cultivando as artes pacíficas: tecelões, carpinteiros, vinhateiros ou jardineiros, jamais armeiros nem comerciantes. Espalhados em pequenos grupos por toda a Palestina, no Egito, e até no monte Horeb, eles se ofereciam mutuamente a mais completa hospitalidade. É assim que veremos Jesus e seus discípulos viajarem de cidade em cidade, de província em província, sempre seguros de encontrarem abrigo.
Segundo Josefo, “os essênios eram de uma moralidade exemplar. Esforçavam-se para reprimir toda paixão e todo movimento de cólera.
Eram sempre benevolentes em suas relações, pacíficos e com a melhor boa fé. Sua palavra tinha mais força do que um juramento; por isso consideravam o juramento, na vida comum, uma coisa supérflua e um perjúrio. Suportavam com admirável energia de alma e com o sorriso nos lábios as mais cruéis torturas, mas não violavam o menor preceito religioso”.
Indiferente à pompa exterior do culto de Jerusalém, repelido pela dureza dos saduceus, pelo orgulho farisaico, pelo pedantismo e secura da sinagoga, Jesus foi atraído para os essênios por uma afinidade natural. (4) A morte prematura de José tornou inteiramente livre o filho de Maria, já homem adulto. Seus irmãos continuaram o ofício do pai e sustentaram a casa. Sua mãe deixou-o partir secretamente para Engaddi.
Acolhido como irmão, saudado como eleito, ele deve ter conquistado rapidamente sobre os próprios mestres uma invencível ascendência, por suas faculdades superiores, sua ardente caridade e algo
de divino que transparecia em todo o seu ser. Recebeu deles o que só os essênios podiam dar-lhe: a tradição esotérica dos profetas e, por ela, sua própria orientação histórica e religiosa. Compreendeu o abismo que separava a doutrina judaica oficial da antiga sabedoria dos iniciados, verdadeira mãe das religiões, mas sempre perseguida por Satã, isto é, pelo espírito do Mal, espírito de egoísmo, de ódio e de negação, unido ao poder político absoluto e à impostura sacerdotal. Aprendeu que o Gênese encerrava, sob a chancela de seu simbolismo, uma teogonia e uma cosmogonia tão afastadas de seu sentido literal quanto a ciência mais profunda está distante da fábula mais infantil. Contemplou os dias de Eloim, ou a criação eterna pela emanação dos elementos e pela formação dos mundos; a origem das almas flutuantes e seu retorno a Deus através das existências progressivas ou as gerações de Adão. Foi tocado pela grandeza do pensamento de Moisés, que pretendera preparar a unidade religiosa das nações, criando o culto do Deus único e encarnando essa idéia em um povo.

Comunicaram-lhe em seguida a doutrina do Verbo divino, já ensinada por Krishna na Índia, pelos sacerdotes de Osíris no Egito, por Orfeu e Pitágoras na Grécia, e conhecida pelos profetas sob a
denominação de Mistério do Filho do Homem e do Filho de Deus. Segundo essa doutrina, a mais alta manifestação de Deus é o Homem, que, por sua constituição, sua forma, seus órgãos e sua inteligência, é a imagem do Ser universal, dele possuindo as faculdades. Porém, na evolução terrestre da humanidade, Deus está como que esparso, fracionado e mutilado, na multiplicidade dos homens e da imperfeição humana. Ele sofre, busca-se a si mesmo e luta nela. Ele é o Filho do Homem. O Homem perfeito, o Homem-Modelo, que é o pensamento mais profundo de Deus, permanece oculto no abismo infinito de seu desejo e de sua potência. No entanto, em certas épocas, quando se trata de arrancar a humanidade de um abismo, de reuni-la para lançá-la mais
alto, um Eleito identifica-se com a divindade, atraindo-a para si pela Força, pela Sabedoria e pelo Amor, manifestando-se de novo aos homens. Então a divindade, pela virtude e sofrimento do Espírito, mostra-se completamente presente nele. O Filho do Homem torna-se o Filho de Deus e seu verbo vivo. Em outras eras e em outros povos já tinham existido filhos de Deus. Mas desde Moisés isso não acontecia em Israel. Todos os profetas esperavam esse Messias. Os Videntes diziam mesmo que dessa vez ele se chamaria o Filho da Mulher, da Ísis celeste, da luz divina que é a Esposa de Deus, porque a luz do Amor brilharia nele acima de todos os outros, com um brilho fulgurante ainda desconhecido na terra. Essas coisas ocultas que o patriarca dos essênios revelava ao jovem galileu nas praias desertas do mar Morto, na solidão de Engaddi, pareciam-lhe ao mesmo tempo maravilhosas e conhecidas. Foi com singular emoção que ouviu o chefe da ordem comentar as palavras que ainda hoje se podem ler no livro de Enoch: “Desde o começo, o Filho do Homem estava no Mistério, o Altíssimo mantinha-o junto de seu poder e o manifestava a seus eleitos.. . . Mas os reis ficarão assustados e prostrarão o rosto contra a terra e o pavor se abaterá sobre eles, quando virem o filho da mulher sentado sobre o trono de sua glória... Então o Eleito chamará todas as forças do céu, todos os santos das alturas e o poder de Deus. Então os querubins, os serafins, os ofanins, todos os anjos da força, todos os anjos do Senhor, isto é, do Eleito e da outra força, que servem sobre a terra e acima das águas, elevarão suas vozes”(5).
A essas revelações, as palavras dos profetas, cem vezes relidas e meditadas, cintilaram aos olhos do nazareno com clarões novos, profundos e terríveis, como relâmpagos na noite. Quem seria, portanto, este Eleito? E quando chegaria ele a Israel?
Jesus passou vários anos com os essênios. Submeteu-se à sua disciplina, estudou com eles os segredos da natureza e exercitou-se na terapêutica oculta. Dominou inteiramente os sentidos para desenvolver o espírito. Nenhum dia passava sem que meditasse sobre os destinos da humanidade e não se interrogasse a si mesmo.
Foi uma noite memorável para a ordem dos essênios e para seu novo adepto aquela em que ele recebeu, no mais profundo segredo, a iniciação superior do quarto grau, que só se concedia no caso especial de uma missão profética, desejada pelo irmão e confirmada pelos anciãos. Reuniam-se numa gruta talhada no interior da montanha como uma imensa sala, com um altar e assentos de pedra. O chefe da ordem lá estava, com alguns anciãos. Algumas vezes, duas ou três essênias,
profetisas iniciadas, também eram admitidas na misteriosa cerimônia. Carregando tochas e palmas, elas saudavam o novo iniciado, vestido de linho branco, como “o Esposo e o Rei” que elas tinham pressentido e que viam talvez pela última vez! A seguir, o chefe da ordem, em geral um velho centenário (Josefo diz que os essênios viviam muito tempo) apresentava-lhe o cálice de ouro, símbolo da iniciação suprema, que continha o vinho da vinha do Senhor, símbolo da inspiração divina.
Diziam que Moisés bebera nesse cálice aos setenta anos. Alguns remontavam a prática desse ritual até Abraão, que recebera de Malquisedec a mesma iniciação, sob as espécies do pão e do vinho.(6) Jamais o Ancião apresentava a taça a um homem no qual não reconhecesse com certeza os sinais de uma missão profética. Porém, esta missão, ninguém a podia definir para ele; devia encontrá-la sozinho. Tal é a lei dos iniciados: nada do exterior, tudo do interior. De agora em diante, estava livre, senhor de suas ações, liberado pela ordem, hierofante ele próprio, entregue ao vento do Espírito, que podia lançá-lo ao abismo ou transportá-lo para os cumes, acima das regiões das tormentas e das vertigens.
Quando, depois dos cânticos, das orações, das palavras sacramentais do Ancião, o Nazareno tomou a taça, um pálido raio da aurora, penetrando por uma fenda da montanha, deslizou tremulante sobre as tochas e as longas vestes brancas das jovens essênias. Elas também tremeram quando o raio de luz caiu sobre o pálido galileu, pois uma grande tristeza pairou em sua bela fisionomia. Seu olhar perdido revia os doentes de Siloé e, no fundo daquela dor sempre presente, já entrevia, talvez, a estrada que deveria percorrer?
 
Ora, naquele tempo, João Batista pregava às margens do Jordão. Ele não era um essênio, mas um profeta popular da forte raça de Judá. Impelido para o deserto por uma piedade feroz, ele levava a vida mais dura, em orações, jejuns e macerações. Sobre o corpo nu curtido pelo sol, trazia, à guisa de cilício, uma veste tecida com pêlo de camelo, como sinal da penitência que queria impor a si mesmo e a seu povo; pois sentia profundamente a aflição de Israel e esperava libertá-la.
Imaginava, conforme a idéia judaica, que o Messias viria logo, como vingador e justiceiro; que, como um novo macabeu, sublevaria o povo, expulsaria o romano, castigaria todos os culpados, e depois entraria triunfalmente em Jerusalém, reestabelecendo o reinado de Israel acima de todos os povos, na paz e na justiça. Ele anunciava às multidões a vinda próxima desse Messias, acrescentando que para isso era necessário preparar-se através do arrependimento no coração. Tomando emprestado aos essênios o costume das abluções, transformando-o à sua maneira, João Batista havia imaginado o batismo do Jordão como um símbolo visível, como uma realização pública da purificação interior que ele exigia. Essa cerimônia nova, essa pregação veemente diante das multidões imensas, na moldura do deserto, em face das águas sagradas do Jordão, entre as montanhas severas da Judéia e da Peréia, dominava as imaginações e atraía as multidões. Relembrava os dias gloriosos dos velhos profetas e dava ao povo o que ele não mais encontrava no templo: aquela comoção interior e, após os terrores do arrependimento, uma esperança vaga e prodigiosa. Acorria-se de todos os pontos da Palestina e até de mais longe para ouvir o santo do deserto que anunciava o Messias. As multidões, atraídas por sua voz, lá ficavam acampadas por várias semanas para ouvi-lo todos os dias, e não queriam mais ir embora, esperando que o Messias aparecesse. Muitos só desejavam tomar as armas sob seu comando para recomeçar a guerra santa.
Herodes Antipas e os sacerdotes de Jerusalém começavam a inquietar-se com esse movimento popular. Além disso, os sinais do tempo eram graves. Tibério, com setenta e quatro anos, terminava sua velhice nos deboches de Capri. Pôncio Pilatos redobrava sua violência contra os judeus. No Egito, sacerdotes tinham anunciado que a Fênix ia renascer das cinzas. (7) Jesus, que sentia crescer interiormente sua vocação profética, mas ainda procurava seu caminho, veio também ao deserto do Jordão, com alguns irmãos essênios que já o seguiam como mestre. Ele quis ver o  Batista, ouvi-lo e submeter-se ao batismo público. Desejava entrar em cena por um ato de humildade e de respeito ante o profeta que ousava erguer a voz contra os poderosos do momento, e despertar de seu sono a alma de Israel.
Ele viu o rude asceta, peludo e cabeludo, com sua cabeça de leão visionário, de pé em um púlpito de madeira sob um tabernáculo rústico coberto de ramagens e peles de cabras. Em volta dele, entre os magros arbustos do deserto, uma multidão estava acampada: peões, soldados de Herodes, samaritanos, levitas de Jerusalém, idumeus com seus rebanhos de carneiros, até árabes estavam lá com seus camelos, tendas e caravanas, por causa da “voz que retumbava no deserto”. E essa voz
tonitruante rolava sobre aquela multidão, dizendo: “Emendai-vos, preparai os caminhos do Senhor, endireitai suas veredas”. Dizia que os fariseus e os saduceus eram “uma raça de víboras”. Proclamava que “o machado já estava na raiz das árvores” e referia-se ao Messias, dizendo: “Eu somente vos batizo com água, mas ele vos batizará com fogo”.
Em seguida, ao pôr-do-sol, Jesus viu aquelas massas populares se apressarem na direção de um ancoradouro, às margens do Jordão, e mercenários de Herodes, até bandidos inclinarem-se sob a água que lhes derramava Batista. Ele mesmo aproximou-se. João não conhecia Jesus, nada sabia sobre ele, mas reconheceu o essênio por suas vestes de linho.
Ele o viu, perdido na multidão, entrar na água até a cintura e curvar-se humildemente para receber a aspersão. Quando o neófito se levantou, o olhar temível do feroz pregador e o olhar do galileu se encontraram. O homem do deserto estremeceu sob a irradiação da doçura maravilhosa daquele olhar, e estas palavras escaparam-lhe involuntariamente: “Serás tu o Messias?” (8) O misterioso essênio nada respondeu, mas, inclinando a cabeça pensativa e cruzando as mãos sobre o peito, pediu ao Batista sua bênção. João sabia que o silêncio era a lei dos essênios noviços. Então, solenemente, estendeu as duas mãos. Depois o Nazareno desapareceu com seus companheiros entre os caniços às margens do rio. O Batista viu-o partir com uma mistura de dúvida, de alegria
secreta e de melancolia profunda. Que eram sua ciência e sua esperança profética diante da luz que havia percebido nos olhos do desconhecido, luz que parecia iluminar todo o seu ser? Ah! Se o jovem e belo galileu fosse o Messias, ele teria visto a alegria de seus dias! E sua missão estaria terminada, sua voz iria calar-se! A partir daquele dia, ele pôs-se a pregar com voz mais profunda e mais comovida sobre o tema melancólico: “É preciso que ele cresça e que eu diminua”. Começava a sentir a lassidão e a tristeza dos velhos leões que, cansados de rugir, deitam-se em silêncio para esperar a morte... Seria ele o Messias? A pergunta do Batista ecoava ainda na alma de Jesus. Desde a eclosão de sua consciência, ele encontrara Deus em si mesmo e a certeza do reino do céu na beleza grandiosa de suas visões.
Depois, o sofrimento humano tinha lançado em seu coração seu terrível grito de angústia. Os sábios essênios haviam-lhe ensinado o segredo das religiões, a ciência dos mistérios; mostraram-lhe a decadência espiritual da humanidade e sua espera de um salvador. Mas, como encontrar a força para arrancá-la do abismo? Eis que o apelo direto de João Batista caía no silêncio de sua meditação como o raio do Sinai. Seria ele o Messias?

Jesus só podia responder àquela pergunta recolhendo-se no mais profundo de seu ser. Daí o retiro, o jejum de quarenta dias que Mateus resume sob a forma de uma lenda simbólica. A Tentação representa na realidade, na vida de Jesus, a grande crise e a visão soberana da verdade, pela qual devem passar infalivelmente todos os profetas, todos os iniciadores religiosos antes de encetarem sua obra. Acima de Engaddi, onde os essênios cultivaram o sésamo e a vinha, uma vereda escarpada conduzia a uma gruta que se abria na muralha do monte. Entrava-se ali por duas colunas dóricas, talhadas na rocha bruta, semelhantes à do Retiro dos Apóstolos, no vale de Josafá.
Lá, ficava-se suspenso acima do abismo a pique, como em um ninho de águia. No fundo de uma garganta, viam-se vinhedos e habitações humanas; mais distante o mar Morto, imóvel e cinzento, e as montanhas isoladas de Moab. Os essênios tinham reservado esse retiro àqueles que queriam submeter-se à prova da solidão. Havia ali vários rolos de papiro dos profetas, arômatas fortificantes, figos secos e um filete de água, único alimento para o asceta em meditação. Jesus para lá se retirou.
Primeiro reviu em seu espírito todo o passado da humanidade. Pesou a gravidade da hora presente. Roma vencia; com ela, o que os magos persas tinham chamado o reinado de Arimã e os profetas, o
reinado de Satã, o signo da Besta, a apoteose do Mal. As trevas invadiam a humanidade, a alma da terra. O povo de Israel recebera de Moisés a missão real e sacerdotal de representar a varonil religião do Pai, do Espírito puro, de ensiná-la às outras nações e de fazê-la triunfar. Seus reis e sacerdotes teriam cumprido aquela missão? Os profetas, os únicos que tinham consciência disso, respondiam unanimemente: Não! Israel agonizava sob a opressão de Roma. Seria necessário arriscar, pela centésima vez, um levante, como ainda sonhavam os fariseus, uma restauração da realeza temporal de Israel pela força? Seria necessário declarar-se filho de Davi e proclamar como Isaías: “Enlouquecerei os povos na minha cólera e os embriagarei na minha indignação e derrubarei sua força por terra”? Seria necessário ser um novo Macabeu e fazer-se nomear pontífice-rei?
Jesus podia tentá-lo. Ele vira multidões prontas a erguer-se à voz de João Batista, e a força que sentia em si mesmo era ainda bem maior! Mas a violência teria razão sobre a violência? A espada poria fim ao reino da espada? Não seria isso fornecer novos recrutas aos poderes das trevas que espreitavam suas presas na sombra? Não seria melhor tornar acessível a todos aquela verdade que até então se mantivera como privilégio de alguns santuários e de raros iniciados, abrir-lhes os corações esperando que ela penetrasse nas inteligências pela revelação interior e pela ciência? Pregar o reino dos céus aos simples, substituir o reino da Lei pelo reino da Graça? Transformar a humanidade profundamente e pela base, regenerando as almas? Mas de quem seria a vitória? De Satã ou de Deus? Do espírito do mal, que reina com as terríveis potências da terra, ou do espírito divino, que reina nas invisíveis legiões celestes e dorme no coração do homem como a centelha na pedra? Qual seria a sorte do profeta que ousasse encerrar o véu do templo para mostrar o vazio do santuário, desafiar ao mesmo tempo Herodes e César? Entretanto, era preciso fazê-lo! A voz interior não lhe dizia como a Isaías: “Toma um grande volume e escreve nele com uma pena de homem!” A voz do Eterno gritava-lhe: “Levanta-te e fala!” Tratava-se de encontrar o Verbo vivo, a fé que transporta montanhas, a força que derruba fortalezas. Jesus pôs-se a orar com fervor. Então uma inquietação, uma perturbação crescente apoderaram-se dele. Teve a sensação de perder a felicidade maravilhosa que tinha partilhado até então e de despencar num abismo tenebroso. Uma nuvem negra o envolveu, cheia de sombras de toda espécie. Distinguiam-se nela as figuras dos irmãos, os mestres essênios, de sua mãe. As sombras diziam-lhe, uma após outra:
“Insensato, queres o impossível! Não sabes o que te espera! Renuncia!”
A invencível voz interior respondia: “É necessário!” Ele lutou assim durante muitos dias e noites, ora de pé, ora de joelhos, ora prosternado. E mais profundo tornava-se o abismo em que descia, e mais densa a nuvem que o envolvia. Tinha a sensação de aproximar-se de algo assustador e inominável. Afinal entrou naquele estado de êxtase lúcido que lhe era próprio, em que a parte profunda da consciência desperta, entra em comunicação com o Espírito vivo das coisas e projeta sobre a tela diáfana do sonho as imagens do passado e do futuro. O mundo exterior desaparece, os olhos se fecham. O Vidente contempla a Verdade sob a luz que inunda seu ser e faz de sua inteligência um foco incandescente.
O trovão rolou. A montanha tremeu até a base. Um turbilhão de vento, vindo do fundo dos espaços, transportou o Vidente para o pináculo do templo de Jerusalém. Telhados e minaretes reluziam nos ares como uma floresta de ouro e prata. Hinos ecoavam do Santo dos Santos. Ondas de incenso subiam de todos os altares e vinham rodopiar aos pés de Jesus. O povo, com roupas de festa, enchia os pórticos. Mulheres soberbas cantavam para ele hinos de amor ardente. Trombetas soavam e cem mil vozes proclamavam: “Glória ao Messias! Glória ao rei de Israel!” Então, uma voz vinda de baixo disse-lhe: “Tu serás esse rei, se quiseres me adorar”. E Jesus perguntou: “Quem és tu?” De novo o vento levou-o, através dos espaços, para o cimo de uma montanha. A seus pés, os reinos da terra estendiam-se numa claridade dourada. E a mesma voz lhe disse: “Eu sou o rei dos espíritos e o príncipe da Terra”. Ao que Jesus respondeu: “Sei quem és. Tuas formas são inúmeras, teu nome é Satã. Aparece sob tua forma terrestre!” A figura de um monarca coroado apareceu entronizado sobre uma nuvem. Uma auréola baça cingia sua cabeça imperial. A figura sombria destacava-se sobre um nimbo sangrento; sua face era pálida e o olhar parecia o corte de um machado. E falou: “Eu sou César. Curva-te somente, e eu te darei todos esses reinos”. Jesus respondeu-lhe: “Para trás, tentador! Está escrito: Só adorarás o Eterno, teu Deus!” Logo a visão desapareceu. Vendo-se sozinho na caverna de Engaddi, Jesus falou consigo mesmo: “Por que sinal vencerei as potências da terra?” “Pelo sinal do Filho do Homem”, respondeu-lhe uma voz do alto. 
 
“Mostra-me este sinal”, pediu Jesus.

Uma constelação brilhante apareceu no horizonte. Tinha quatro estrelas em forma de cruz. O galileu reconheceu nela o signo das antigas iniciações, familiar no Egito e conservado pelos essênios. No começo do mundo, os filhos de Jafé haviam-no adorado como o signo do fogo terrestre e celeste, o signo da Vida com todas as suas alegrias, o signo do Amor com todas as suas maravilhas. Mais tarde, os iniciados egípcios nele tinham visto o símbolo do grande mistério, a Trindade dominada pela Unidade, a imagem do sacrifício do Ser inefável que rompe a si mesmo para se manifestar nos mundos. Símbolo ao mesmo tempo da vida, da morte e da ressurreição, ele cobria hipogeus, túmulos, templos inumeráveis. A cruz esplêndida crescia e aproximava-se, como que atraída pelo coração do Vidente. As quatro estrelas vivas flamejavam como sóis de poder e de glória. A voz celeste falou: “Eis o sinal mágico da Vida e da Imortalidade. Outrora os homens o possuíram. Perderam-no depois. Tu o queres devolver-lhes?” “Eu quero”, respondeu Jesus. 
 
“Então, olha!
Eis aí teu destino.”

Bruscamente as quatro estrelas se apagaram. Fez-se noite. Um trovão subterrâneo abalou as montanhas e, do fundo do Mar Morto, surgiu uma montanha sombria, cujo cume ostentava uma cruz negra. Pregado nela estava um homem agonizante. Uma multidão demoníaca cobria a montanha e urrava em zombaria infernal: 
 
“Se és o Messias,salva-te!”

O Vidente arregalou os olhos, depois caiu para trás, banhado de um suor frio. Aquele homem crucificado era ele próprio... Havia compreendido. Para vencer, era preciso que se identificasse com aquela imagem assustadora, evocada por ele mesmo e colocada diante de si como uma sinistra interrogação. Suspenso na incerteza como no vazio dos espaços infinitos, Jesus sentia ao mesmo tempo as torturas do crucificado, os insultos dos homens e o silêncio profundo do céu. E a voz angélica continuou:
 
 “Tu podes torná-la ou recusá-la”.

A visão já tremia e a cruz-fantasma começava a empalidecer com seu supliciado, quando de repente Jesus reviu junto de si os doentes do poços de Siloé, e atrás deles uma multidão de almas desesperadas que imploravam, com as mãos unidas:
 
 “Sem ti, estamos perdidas! Salvanos, tu, que sabes amar!”

Então o galileu ergueu-se lentamente e, abrindo os braços cheios de amor, exclamou:
 
 “Vinde a mim, cruz! E que o mundo seja salvo!”

Logo Jesus sentiu uma forte dilaceração em todos os seus membros e soltou um grito terrível . . . Ao mesmo tempo a montanha escura desmoronou-se, a cruz sumiu, uma luz suave e uma felicidade divina inundaram a imensidão, dizendo:
 
 “Satã não é mais o senhor! A Morte foi vencida! Glória ao Filho do Homem! Glória ao Filho de Deus!” 
 
Quando Jesus despertou daquela visão, nada mudara em torno dele. O sol levante dourava as paredes da gruta de Engaddi. Um orvalho tépido como lágrimas de amor angélico molhava seus pés doloridos e brumas flutuantes elevaram-se do Mar Morto. Ele, porém, não era mais o mesmo. Um acontecimento definitivo ocorrera no abismo insondável de sua consciência. Ele resolvera o enigma de sua vida, conquistara a paz; a grande certeza penetrara nele. Do esfacelamento de seu ser terrestre, que ele havia pisado e lançado no abismo, uma consciência nova surgira radiosa. Ele sabia que se tinha tornado o Messias por um ato irrevogável de sua vontade. Logo depois desceu à aldeia dos essênios. Soube que João Batista acabava de ser preso por Antipas e fora encarcerado na fortaleza de Makerus. Longe de assustar-se com este presságio, viu nele um sinal de que os tempos tinham chegado e era preciso agir por sua vez. Anunciou então aos essênios que ia pregar na Galiléia “o Evangelho do reino dos céus”. Isto queria dizer: levar os grandes Mistérios ao alcance dos simples, traduzir-lhes a doutrina dos iniciados. Semelhante audácia nunca mais fora vista desde os tempos em que Sáquia-Muni, o último Buda, movido por uma imensa piedade, havia pregado às margens do Ganges. A mesma compaixão sublime pela humanidade animava Jesus, acrescida de uma luz interior, um poder de amor, uma grandeza de fé e uma energia de ação que só pertenciam a ele. Do fundo da morte que sondara e experimentara de antemão, trazia a seus irmãos a esperança e a vida.

(1). Josefo, Guerra dos Judeus, II, etc. “Antiguidades”, XIII, 5-9,

XVIII, 1-5.

(2). Filon, Da vida contemplativa.

(3). Pontos comuns entre os essênios e os pitagóricos: A oração ao nascer do sol. As vestes de linho. Os ágapes fraternais. O noviciado de um ano. Três graus de iniciação. A organização da ordem e a comunidade dos bens, regidos por curadores. A lei do silêncio. O juramento dos Mistérios. A divisão dos ensinamentos em três partes: 1) Ciência dos princípios universais
ou Teogonia, que Filon chama a Lógica; 2) A Física ou a Cosmogonia; 3) A Moral. isto é, tudo o que se refere ao homem, ciência à qual se consagravam especialmente os terapeutas.

(4). Pontos comuns entre a doutrina dos essênios e a de Jesus: O amor ao próximo colocado como primeiro dever. A proibição de jurar para atestar a verdade. O ódio à mentira. A humildade. A instituição da Ceia, conforme os ágapes fraternais dos essênios, mas com um sentido novo, o do sacrifício.

(5). Livro de Enoch – cap. XLVIII e LXI. Esta passagem demonstra que a doutrina do Verbo e da Trindade, que se acha no Evangelho de João, existia em Israel muito tempo antes de Jesus, e saía do fundo do profetismo esotérico. No livro de Enoch, o Senhor dos Espíritos representa o Pai. O Eleito representa o Filho. E a outra força, o Espírito Santo.

(6). Gênese, XIV, 18.

(7). Tácito, Anais, VI, 28,31.

(8). Segundo os Evangelhos, João reconheceu imediatamente Jesus como o Messias e o batizou como tal. A este respeito os relatos são contraditórios, pois mais tarde João, prisioneiro de Antipas em Makerus, mandou perguntar a Jesus: “És tu aquele que deve vir, ou ainda devemos esperar um outro?” (Mateus, XI, 3). Esta dúvida tardia prova que, se tinha suspeitado o Messias em Jesus, João não estava totalmente convencido. Mas os primeiros redatores dos Evangelhos, sendo judeus, apresentavam Jesus como tendo recebido sua missão e sua consagração de João Batista, profeta judeu e popular.
 
 .´.Trechos do livro Os grandes iniciados.´.